segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Salgado Filho: controladores de voo trabalham duas horas e descansam no mínimo meia

De olho na tela preta e verde do radar, o sargento Saulo Pessetti, 30 anos, está encerrando a segunda hora de trabalho do dia. É a senha para uma hora de descanso em confortáveis poltronas em uma sala ao lado do setor de controle de radar, no prédio do Antigo Salgado Filho. Controladores de voo precisam trabalhar duas horas e descansar no mínimo meia porque o olhar tem de ser aguçado e o raciocínio, rápido, para orientar os pilotos da área de controle de Porto Alegre, que inclui todos os aviões voando até 15 mil pés na região metropolitana e Serra, até um raio de 120 quilômetros. Quando Pessetti chega em casa, ao final do turno de sete horas, sente alívio por tudo ter dado certo, como todos os dias até hoje.

— Não dá para pensar muito no que pode acontecer no dia seguinte porque nunca acontece a mesma coisa duas vezes — diz o controlador.

É impossível conversar com alguém a serviço da aviação que não cite a preocupação com segurança em algum momento. Fiscais de pátio, mecânicos, comissários, funcionários de balcão: em alguma hora da conversa, surgirá um comentário qualquer com o objetivo de tranquilizar o interlocutor, como este de Pessetti.

— Se as pessoas conhecessem melhor a organização do nosso trabalho, sentiriam mais confiança em voar.

O trabalho de Pessetti é coordenado com outras tantas funções: o plano de cada voo é submetido pelas companhias aéreas duas horas antes, passando pelo crivo da Aeronáutica, que fornece análises meteorológicas, dados sobre os aeroportos, rotas e eventuais equipamentos inoperantes.

Pelo controle de Porto Alegre, passaram em média 240 voos por dia em 2008. Enquanto Pessetti olha fixo para a tela escura, em que cada avião é um ponto e um número, dois andares acima, no envidraçado topo da torre de controle, o sargento Cândido Chiesa tem raros momentos com os olhos parados. É dele a tarefa de autorizar pousos e decolagens, e seu território é a pista: quando a aeronave deixa de ser apenas um ponto no radar e torna-se visível a olho nu, Chiesa é seu guardião. Ainda a quilômetros de Porto Alegre, um risco brilhante sobrevoando o Delta do Jacuí, o Embraer se aproxima, e o sargento percorre com o olhar a pista para certificar-se de que está livre. Chiesa é brincalhão e tenta sacanear o repórter: "a gente tem de olhar se o avião está pousando com as rodinhas, por exemplo", mas quando o jato já está perto o bastante para se identificar o formato de um avião, ele muda. Braços cruzados, cenho franzido, instruções rápidas pelo rádio, alterna o olhar entre o avião e a pista, até a aeronave encostar no chão quase sem levantar poeira.

— Esses caras pousam bem para caramba — elogia.

Ao sair da pista para o pátio, a aeronave passa a ser responsabilidade do Centro de Operações Aeronáuticas da Infraero. É o centro nervoso do aeroporto, responsável por posicionar as aeronaves, definir quais serão as salas de embarque, acionar procedimentos de emergência, explica o fiscal de pátio Marcius Stevanin. Escuta três frequências de rádio — a do solo, a de "perto" (aviões de duas a seis milhas de distância) e a de "longe" (aeronaves até 10 milhas), para saber, o quanto antes, se há algum problema. Com dezenas de aeronaves indo e vindo, a tarefa é puxada. E, como todo o resto, Marcius prefere justamente os horários de pico.

— Eu gosto é de ver o bicho pegar. É quando tu vê a coisa toda funcionar como um relógio. Ficar parado atrofia o cérebro — diz.

Há um rodízio entre os fiscais. Marcius também trabalha na pista e sinaliza aeronaves — aquilo de ficar fazendo gestos para "estacionar" os aviões corretamente. Foi quando teve a "inesquecível oportunidade" de sinalizar o avião da banda de metal Iron Maiden, da qual é fã, o que rendeu autógrafo e fotos com o vocalista Bruce Dickinson e o baixista Steve Harris que não saem do celular. Jogar em todas as posições também rende situações difíceis. A pior delas foi no dia do acidente da TAM em Congonhas, quando a tragédia foi acompanhada do desespero de parentes de vítimas que tentavam entrar no COA para obter mais informações. Marcius passou meses trabalhando mais tenso, com atenção redobrada.

— A gente sempre acha que não vai acontecer. O que houve afetou todo mundo, mas depois disso tu ficas mais atento, fazendo de tudo para dar tudo certo.

Fonte: Rodrigo Muzell (Zero Hora) - Foto: Silvio Tobolski

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